Coelho está acima do peso: o que pode ser?

Você passa a mão pelas costas daquele coelho fofinho que mora na sala e percebe que a coluna não está mais tão fácil de sentir sob a pelagem densa. A tigela de ração vive transbordando, o petisco gostoso é servido todo santo dia e a ideia de que o pet precisa de espaço para correr parece caber direitinho na rotina de uma gaiola que fica na varanda. O ganho de peso excessivo em coelhos é provocado primariamente pelo consumo exagerado de ração concentrada e petiscos calóricos, associado à falta de feno de gramíneas à vontade e ao sedentarismo imposto pelo confinamento. Sabe aquela história de que bicho gordinho é sinônimo de saúde? Pois é. No caso dos lagomorfos, que são os animais da família dos coelhos, a balança que sobe rápido esconde um desequilíbrio metabólico que afeta a vida inteira do bicho. Coelhos que ultrapassam em dez ou quinze por cento o peso ideal para a raça e a idade já entram na faixa de sobrepeso. Passou disso, a conversa muda para obesidade franca. Por que isso acontece com tanta facilidade? Pense no coelho como um fermentador de alta precisão que foi desenhado pela natureza para processar fibras longas e duras o dia todo. O trato digestivo dele precisa de capim seco, de movimento mastigatório constante e de trânsito contínuo. Quando você enche a tigela de ração comercial peletizada ou daquelas misturas cheias de sementes e grãos coloridos, o animal come uma comidinha altamente calórica e rica em amido em poucos minutos. Ele fica saciado na marra, não precisa mastigar horas a fio, larga o feno de lado e acumula gordura visceral. É o equivalente a deixar uma criança livre num rodízio de salgadinhos e doces, enquanto a salada murcha no canto do prato.
A pelagem esconde e o bumbum avisa
O maior perigo do sobrepeso em coelhos é que a pelagem fofinha funciona como um casaco de inverno que esconde qualquer curva nova. O tutor só percebe que o animal engordou quando o estrago já está feito. Um dos primeiros sinais visíveis de que o peso passou do limite não acontece na balança, mas sim na higiene do bicho. Um coelho com excesso de gordura no abdômen perde a flexibilidade. Ele precisa se curvar para alcançar o ânus e comer os cecotrofos, que são aquelas fezes mais macias e cheias de nutrientes que ele produz e precisa ingerir para fechar o ciclo digestivo. Quando a barriga aperta e a articulação emperra, ele simplesmente não consegue se curvar. O resultado prático é uma sujeira úmida acumulada na região perianal, confundida muitas vezes com diarreia crônica, mas que na verdade é só o cecotrofo que ficou sem destino. Essa sujeira acumulada atrai moscas num piscar de olhos, o que abre porta para infestações graves na pele. E tem o problema das patas. As patas dos coelhos não têm coxins fofinhos como as de cães e gatos, pois contam apenas com uma camada grossa de pelo para amortecer o impacto. Quando o animal está pesado demais e vive em pisos lisos ou de grade, a pressão constante nos calcanhares bloqueia a circulação local. Isso gera feridas doloridas, queda de pelo e infecções bacterianas difíceis de curar.
Como acertar o prato sem errar na mão
Ajustar a dieta de um coelho gordinho exige paciência, porque não se trata de fechar a torneira de comida de uma hora para a outra. Cortar a ração bruscamente de um fermentador cecal é um erro gravíssimo que pode causar a paralisação total do intestino, uma emergência médica que coloca a vida do animal em risco em questão de horas. A mudança deve ser feita aos poucos, acompanhada com uma balança de cozinha digital para registrar o peso do pet toda semana. A base da alimentação de um coelho adulto precisa ser o feno de gramíneas, como capim seco, Timothy ou Tifton. Esse feno deve ficar disponível vinte e quatro horas por dia, ocupando setenta a oitenta por cento de tudo o que ele come. É a mastigação longa e lateral das fibras desse capim que desgasta os dentes do jeito certo e mantém o intestino rodando no ritmo correto. A ração comercial não é a refeição principal, mas sim um suplemento medido com rigor. Ela deve ocupar apenas uma fração mínima da rotina, calculada em gramas de acordo com o peso vivo do animal, variando em torno de vinte e cinco a trinta gramas por quilo por dia. Petiscos industrializados, biscoitos para pets convencionais e excesso de frutas cheias de açúcar devem ser sumariamente eliminados do cardápio. Folhas verdes escuras, como chicória, almeirão e rúcula, entram como um complemento diário adequado, sempre respeitando a proporção correta para o porte dele.
O espaço para gastar energia
Nenhum coelho consegue manter a forma física vivendo trancado em uma gaiola minúscula. Eles funcionam quase como pequenos atletas que precisam de espaço para esticar as pernas, correr e dar pulos. Liberar o coelho para circular em uma área segura da casa por algumas horas todos os dias faz toda a diferença. Proteger os pisos muito escorregadios com tapetes antiderrapantes ou placas de EVA ajuda a evitar lesões nas articulações e nas solas das patas. Se você notar que o coelho está muito apático, recusando a comida por completo, deixando de produzir fezes ou rangendo os dentes de forma estranha, procure um veterinário especializado em animais exóticos sem demora. O profissional poderá avaliar o escore corporal real do pet, descartar outras causas para o aumento do volume abdominal e montar uma estratégia de emagrecimento segura para devolver a mobilidade e a qualidade de vida ao seu companheiro de orelhas longas.
